• Fábio Wronski
  • UOL

13 Setembro 2017 | 19h38min

Em depoimento ao juiz Sergio Moro, em Curitiba, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva negou nesta quarta-feira (13) ter ficado com raiva do ex-ministro Antonio Palocci, após o colega de partido tê-lo acusado de aceitar a propina da Odebrecht por meio da compra de um terreno para o instituto Lula e um apartamento em São Bernardo do Campo (SP).

Lula disse ter sentido pena da forma como Palocci testemunhou contra ele a Moro. "Eu vi o depoimento do Palocci. Eu não respondi nada, falei nada. Muita gente achou que eu ia chegar aqui com muita raiva do Palocci", disse.

Ao final do depoimento de duas horas e dez minutos, Lula disse que Palocci tem "direito a querer ser livre", mas que ficou preocupado quando o ex-ministro "jogou para cima dos outros" a responsabilidade pelos crimes cometidos.

"O Palocci está preso há mais de um ano, o Palocci tem direito de querer ser livre, tem direito a ficar com o pouco do dinheiro que ele ganhou fazendo com palestra, tem direito de ficar com a a família. O que não pode é se você não quer assumir a tua responsabilidade pelos fatos ilícitos que você fez não jogue em cima dos outros", declarou.

Na avaliação de Lula, Palocci foi digno de pena ao dizer que não é santo e tratar com detalhes dos supostos crimes praticados pelo ex-presidente. "'Não é que eu sou santo, e pau no Lula'. Que é um jeito de você conquistar veracidade para sua frase. Eu senti pena disso", afirmou.

"Simulador, calculista e frio"

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou ainda Palocci de "simulador, calculista e frio", rebateu a acusação sobre "pacto de sangue" e disse que o ex-ministro mentiu em seu depoimento.

"Eu conheço o Palocci bem. O Palocci, se não fosse um ser humano, ele seria um simulador", afirmou Lula. "Ele é tão esperto que é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade. O Palocci é médico, calculista, é frio", completou o ex-presidente a Moro, Moro, que comanda os processos da Operação Lava Jato na primeira instância.

Fico pensando como está a mãe dele, que é militante e fundadora do PT. Não tenho raiva do Pallocci, tenho pena de ter terminado uma carreira tão brilhante da forma como ele terminou"

Perguntado por Moro se Palocci teria mentido no depoimento que deu, o ex-presidente confirmou.

"A única coisa que tem verdade ali é ele dizer que ele está fazendo aquela delação porque ele quer os benefícios da delação. Ou quem sabe ele queira um pouco do dinheiro que vocês bloquearam dele".

Em depoimento a Moro no último dia 6, Palocci afirmou que o ex-presidente deu seu aval a um "pacto de sangue" entre o PT e a construtora Odebrecht, base do escândalo de corrupção envolvendo a Petrobras.

Em seu depoimento, Palocci afirmou ainda que agiu com Lula para barrar investigações da Operação Lava Jato. O ex-presidente negou as acusações e afirmou estar decepcionado com seu parceiro de partido.

Lula rebateu a acusação sobre o "pacto de sangue". "Ele (Palocci) fez um pacto de sangue com os delatores, com os advogados dele e talvez com o Ministério Público. Porque ele disse exatamente o que o Powerpoint queria que ele dissesse", afirmou.

Lula pergunta se Moro é 'imparcial'

Na última consideração ao juiz, Lula questiona a Moro se ele será "imparcial" no julgamento. "E vou terminar fazendo uma pergunta para o senhor, doutor. Eu vou chegar em casa amanha e eu vou almoçar com oito netos e uma bisneta de seis meses que posso olhar na cara dos meus filhos e dizer que eu vim a Curitiba para prestar depoimento a um juiz imparcial?", perguntou.

Moro dá uma resposta afirmativa ao réu. "Não cabe ao senhor fazer esse tipio de pergunta para mim. Mas de todo todo modo, sim". Lula rebateu: "Porque não foi o procedimento na outra ação". Moro não demora em chamar a atenção do petista. "Eu não vou discutir a outra ação, minha convicção foi que o senhor é culpado", declarou o juiz.

O processo

Lula é réu por suspeita de envolvimento em um esquema de corrupção envolvendo oito contratos, firmados de 2004 a 2012, entre a empreiteira Odebrecht e a Petrobras. Sobre ele recaem acusações de nove crimes de corrupção passiva e 94 de lavagem de ativos. A defesa do petista nega as incriminações.

Segundo denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal, o ex-presidente teria recebido a promessa de um terreno para a instalação do Instituto Lula. A oferta, ainda de acordo com o MPF, foi feita pelo ex-presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, em função de Lula ter mantido os executivos Renato Duque e Paulo Roberto Costa em diretorias da Petrobras. Isso teria permitido fraudes e desvios de R$ 75,4 milhões em licitações que contavam com a participação da empreiteira. Desse valor, R$ 12,4 milhões estariam ligados ao caso do terreno.

Essa ação penal envolve a suspeita de um esquema de corrupção com oito contratos, firmados de 2004 a 2012, entre a empreiteira Odebrecht e a Petrobras.

Com desvios de R$ 75,4 milhões, o ex-presidente é suspeito de ter sido beneficiado com a compra de um terreno em São Paulo que seria sede do Instituto Lula e com a aquisição do apartamento vizinho ao imóvel em que ele vive hoje, em São Bernardo do Campo (SP). Lula é acusado de ter cometido o crime de corrupção passiva por nove vezes, e o de lavagem de ativos por 94 vezes.

Além de Lula, também são réus neste processo:

Roberto Teixeira, advogado de Lula

Antonio Palocci, ex-ministro dos governos de Lula e Dilma

Branislav Kontic, ex-assessor de Palocci

Marcelo Odebrecht, ex-presidente da Odebrecht

Paulo Melo, ex-diretor da Odebrecht

Demerval Gusmão, proprietário da DAG Construtora

Glaucos da Costamarques, empresário

Desses, apenas Branislav e Teixeira ainda não foram interrogados. Caso a fala de Lula não termine antes do anoitecer desta quarta-feira, é provável que Branislav, o outro réu com fala marcada para hoje, preste esclarecimentos a Moro em uma outra data.

Teixeira, por sua vez, deveria ter sido ouvido em Curitiba na semana passada, em 6 de setembro. Porém, na noite anterior, foi internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Diagnosticado com insuficiência cardíaca aguda, o advogado teve alta na sexta-feira passada (8) e passou a repousar em casa por ordens médicas. Na última segunda-feira (11), atendendo pedido da defesa, Moro remarcou o interrogatório de Teixeira, que seria ouvido nesta quarta, para as 13h30 de 20 de setembro.



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