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  • Maycon Corazza
  • Fonte: Gazeta do Paraná

13 Agosto 2017 | 07h42min

Em fevereiro de 2016 eu conheci o serviço do HUOP. Até então só tinha andado por aqueles corredores atrás de matérias, corredores cheios, gente demais, profissionais de menos. Tive um aborto retido menos de um ano após uma cesárea. Induzir era arriscado, o ideal era esperar que o meu próprio corpo desse um fim àquela situação, disseram os médicos. 

Fui internada no Centro Obstétrico do hospital até resolverem que induzir seria a melhor opção. Isso levou três dias. Não tinha um travesseiro pra mim, nem pijama hospitalar do meu tamanho. No banho, uma grande embalagem de sabonete líquido servia para a higiene completa de todas as mulheres. Ainda sim, digo e repito: no momento mais difícil de minha vida eu não poderia ter sido melhor tratada! Recebi dos profissionais o cuidado e atenção que nunca tinha recebido em hospital nenhum. Das colegas de quarto - até então simples desconhecidas – o conforto que minha família não podia me dar naquele momento, porque não era autorizada a entrar na ala.  Me senti gente!

Acontece que nem todo mundo teve a mesma impressão que eu. Assim como eu fui muito bem tratada, existem relatos terríveis de violências sofridas por mulheres naquele mesmo lugar. Letícia Fachinello é uma delas. Ela, que teve seu filho no dia 23 de dezembro do ano passado, conta que devido ao fato de sua gravidez ser de risco, todo o seu pré-natal foi no HUOP. 

“Uma semana antes do bebê nascer, em uma segunda-feira, eu comecei a sentir dores. Fui ao hospital, estava com um dedo de dilatação, mas falaram que não estava na hora. Como sou de Santa Tereza fui para a casa do meu pai em Cascavel”, contou. 

Diante da intensidade da dor, Letícia voltou ao hospital na terça-feira, na quarta, na quinta. Depois de ouvir que não era hora e ser mandada de volta pra casa todos estes dias, na madrugada de quinta para sexta Letícia voltou ao HUOP.

“Viram que tinha contração, mas disseram que não estava na hora. Foi quando minha bolsa rompeu e o líquido que saiu era muito escuro. Me internaram”.

Letícia contou que tentaram colocá-la no soro com ocitocina, para induzir o parto. 

“Falei que não era para colocar, porque no meu primeiro parto eu também não havia tido dilatação. Disse que não ia adiantar, que precisava ser cesárea. Então me deixaram no último quarto e ninguém vinha me ver. Até que uma enfermeira me deu um medicamento para a dor. Perto das 7h o médico que estava de plantão e dormiu a noite toda foi embora sem ir me ver. Não sei o nome, mas era japonês”. 

Na troca de plantão chegou outro médico. Letícia foi a primeira a ser examinada. 

“Mãezinha, para você é cesárea agora! Você não tem condições de ter um parto normal”, disse o médico. 

Letícia esperou mais de uma hora pela chegada do anestesista. 

“Me deram cinco doses de rack (anestesia), não vi o parto. Tive ele às 9h20  e fui acordar às 11h. Meu útero não queria comprimir e eu tive muitos coágulos. Meu filho teve sofrimento fetal, mecônio e isso gerou uma infecção no sangue e a epilepsia dele. O neurologista dele acha que foi porque ele passou da hora de nasceu que ele tem epilepsia. Ele tem que tomar gardenal para não ter crise convulsiva. Fora o problema de coração que ele já tinha”, destacou Letícia.

Quem também relata uma série de violência obstétrica é a Jheniffer Verônica Borba Figueiredo Matos. Ela teve seu bebê no HU no dia 30 de abril deste ano, chegou ao hospital com seis dedos de dilatação. Ela conta ter passado por uma episiotomia (incisão efetuada na região do períneo para ampliar o canal de parto) sem seu consentimento. 

“Foi um corte de 13 pontos. Ninguém me perguntou se podia”, afirmou. Além disso, ela relata que durante o parto duas mulheres se apoiavam sobre sua barriga para empurrar o bebê.

“Fraturaram a clavícula do meu bebê,. Com 10 de dilatação um corte de 13 pontos. Precisava de uma fratura de clavícula? Eu acho que não. Não me deixaram ver meu filho”, disse. 

Ela também conta que foi orientada por uma enfermeira a não gritar e que seu marido não recebeu nenhuma informação sobre seu estado durante o período em que esteve lá. Três meses após o parto, Jheniffer ainda sangrava. Seu médico acredita que a manobra utilizada durante o parto para empurrar o bebê pode ter prejudicado algum órgão. “Ele pediu vários exames”, disse. 

Sorte ou azar

“Eu acho que depende muito sim da sorte de pegar um plantão bom porque já fui muito bem atendida em alguns plantões se muito mal atendida em outros. O HU tem excelentes médicos, mas também tem uns que não deveriam se médicos”, destacou Letícia. 

Para saber a opinião de diversas mães sobre o atendimento do Centro Obstétrico do HUOP nossa equipe de reportagem recorreu a um grupo de mães de Cascavel que fazem parte de um projeto da cidade. A maioria delas afirmou ter sido bem atendida. 

”Não tenho do que reclamar, fui bem atendida. Depende muito do plantão que vocês pega. A estrutura do HU é muito boa, estrutura que muitas vezes um hospital particular não tem”, afirmou uma delas. 

Outra destacou que o marido era informado o tempo todo sobre sua situação. Elas elogiaram a comida, roupa de cama, atenção dos profissionais.

Estrutura X Direitos

Enquanto estive no hospital, da minha cabeça não saía a indagação: e se o HU tivesse uma estrutura a altura de seus profissionais? O Centro Obstétrico é assim: existem dois espaços para consultas. Do lado direito de quem entra, uma maca, uma mesinha de computador e cadeiras organizadas em um cantinho minúsculo! Do lado esquerdo, os mesmos equipamentos em um espaço tão ou mais apertado. Quando as coisas ficam corridas, tem atendimento sendo feito de pé e de forma simultânea (presenciei isso, dois atendimentos sendo realizados ao mesmo tempo pelo obstetra). A capacidade é para 16 pacientes, divididas em quatro camas por quarto. No corredor ficam mulheres amamentando seus filhos que acabaram de nascer e também repousam mulheres que passaram por procedimentos (como curetagens). É tudo realmente muito pequeno, o que impede que os maridos acompanhem consultas e partos. Ainda que este seja um direito garantido por lei.  Letícia conta que não poder ter o marido por perto tornou as coisas ainda mais difíceis. “Ele ficou comigo nos horários que podia estar [nos horários de visita]. Fez falta sim”, destacou.

Tentamos contato com a o HUOP para ter mais detalhes sobre a estrutura do hospital, na manhã de sexta-feira (9), mas fomos informados pela assessora de imprensa de que “seria difícil” conseguir entrevista com algum responsável pelo hospital. Tentamos contato telefônico com diretor administrativo do HUOP, Edson Souza e com o diretor geral do HUOP, Paulo Sérgio Wolf, mas não tivemos sucesso. No entanto, sabemos que está em andamento a construção da nova ala materno-infantil do hospital. Serão 63 leitos adultos, sendo 29 de UCI (unidade de cuidado intermediário), 18 de UTI (unidade de terapia intensiva) e mais 35 de enfermaria. A obra será dividida em etapas e contemplará ainda salas de parto, parto na água, cuidados pós-nascimento e a possibilidade de o pai acompanhar a gestante nas salas de pré-parto.

O texto é da jornalista Bruna Bandeira da Luz, do jornal Gazeta do Paraná.

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