Não há muito mais o que comentar sobre a sessão da Câmara de ontem, quando foi votado e aprovado o Plano Municipal de Educação… Muita cortina de fumaça entre os vereadores pouca educação da “plateia” formada por pessoas que se diziam preocupadas com a educação e “educadores”… Página triste e lamentável…

O texto que segue é o editorial publicado nesta quarta-feira na Gazeta do Paraná…

 

“Sem educação”

Dizem que o Poder Legislativo é o retrato da sociedade, sejam nas Câmaras de Vereadores, nas Assembleias Legislativas ou no Congresso Nacional. Assim, ontem, na Câmara de Cascavel, o vereador petista, Jorge Bocasanta, foi feliz ao dizer à plateia que ocupou as acomodações do plenário da Casa, de que “se nós somos ruins, vocês (sociedade) também são”. Foi mais ou menos esse o clima da sessão que aprovou o PME (Plano Municipal de Educação) de Cascavel, que ditará as diretrizes para os próximos 10 anos. Também foi feliz o vereador Jorge Menegatti, que afirmou que ele e sua família não transferem a missão de educar os filhos para escola, igreja ou qualquer outra instituição.

Todo debate, ontem, girou em torno das emendas que tratavam, especificamente, sobre a “diversidade” e direcionamento à discussão sobre a “ideologia de gênero”, para muitos uma afronta à família tradicional, aos princípios cristãos e uma forma de “ditadura gay” – uma minoria impondo regras à maioria. Para outros, era uma forma de estabelecer um debate que resultasse em respeito e tolerância aos “diferentes”. Porém, o que se viu na Câmara de Cascavel, ontem, a exemplo de tantos outros parlamentos pelo Brasil foi a ausência de tolerância, respeito e educação – aquela que se traz de berço e faz parte do caráter, da essência da pessoa enquanto ser humano.

Faltou, ontem, no parlamento cascavelense, entre aqueles que diziam estar representando os “educadores” da cidade, educação, noção de equilíbrio para ouvir as opiniões divergentes. A oportunidade de “dar aula” de como um debate deve ser conduzido em busca do bem comum. Entre os vereadores, o equilíbrio até foi exemplar: os diferentes se respeitaram e venceu a maioria, como é próprio da democracia. O vereador Luiz Frare, em dado momento da discussão, disse fora dos microfones que “a democracia só é bonita quando não nos atinge”. A referência foi para alguns dos “educadores” mais exaltados que sequer queriam ouvir os discursos de quem foi contra a discussão da “ideologia de gênero”.

Assim, a sessão que aprovou o PME não debateu o plano em si, nem se vislumbrou uma ação coordenada para tratar, mesmo que em futuro próximo, da revisão do plano de carreiras e valorização do magistério, da reestruturação das condições físicas das escolas ou da ampliação real da oferta de vagas nos CMEIS (Centros Municipais de Educação Infantil). Também não se falou em como viabilizar a Educação em Tempo Integral e porque programas como o Escola.com não será mais implementado… Perdeu-se uma oportunidade ímpar de melhorar, através do debate, a educação das crianças (meninos e meninas).

Não apenas em Cascavel, mas em vários pontos do Paraná e do Brasil, a aprovação do Plano Municipal de Educação trouxe à tona as intolerâncias… O que não se viu, ainda, infelizmente, foi a intolerância com a estrutura sucateada da educação, professores desvalorizados, escolas desestruturas e falta de vagas no Centros Municipais de Educação Infantil. Para mim, criança nasce menino ou menina (na minha casa foi e é assim) e família ainda depende de “pai” e “mãe”. A questão do “respeito” a quem tem pensamento diferenciado sobre família e sexo, não se discute… Mas, e a questão das políticas voltadas à formação de cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres e suficientemente preparados para ingressarem em uma universidade e ao mercado de trabalho, vão discutir de fato e de verdade.

No editorial desta terça-feira, na Gazeta do Paraná, escrevi o que segue:

Sem foco?

A discussão sobre a “ideologia de gênero” chegou a Cascavel com a votação do Plano Municipal de Educação na Câmara de Cascavel. Com isso, a discussão sobre a “educação” e a “orientação” sexual de “crianças” ocupou boa parte dos discursos e, hoje, vai ser o centro das polêmicas na sessão de hoje. E aí, caro (e)leitor, qual sua opinião sobre o assunto em que se coloca a criança apenas como “criança” e não como “menino” ou “menina”, deixando para que ela decida sua sexualidade (opção sexual) na medida em que tiver o próprio entendimento das coisas. Neste contexto, ressurge a discussão polêmica sobre a intolerância de toda ordem: sexual, religiosa, raça e etc.

Sem entrar exatamente no mérito da questão, é bom relembrar uma velha máxima utilizada inclusive por educadores, de que “a família educa e a escola transmite conhecimentos”. Sendo assim, é preciso deixar claro o papel que cabe aos pais e aos professores. Atropelar alguns processos, sobretudo aqueles nos quais a família, ainda considerada a célula mater da sociedade, tem papel estruturante fundamental, pode produzir problemas graves e irremediáveis.

Contudo, a proposta do arrazoado de hoje quer trazer luz sobre questões fundamentais que acabaram sucumbindo diante da polêmica da “diversidade”. O Plano Municipal de Educação estabelece diretrizes para uma década, norteando as ações do Poder Público e a aplicação de recursos para garantir educação, um direito fundamental e constitucional às crianças. Porém, até agora, os vereadores não trouxeram ao plenário uma discussão sobre a falta de vagas nos Cmeis (Centro Municipais de Educação Infantil) que têm milhares de crianças na “fila de espera”, tão pouco sabem como e quando a administração pretende garantir o atendimento da proposta da Educação em Tempo Integral.

A Comissão de Educação da Câmara sabe (ou deveria saber) que ainda existem escolas de Cascavel com estrutura física inadequada e outra que precisam de reformas e ampliações urgentes. Isto está contemplado no plano? A questão da valorização do magistério também tem ações que mereceram atenção dos parlamentares? E há anda uma centena de questões que poderiam ser levantadas para amplos e acalorados debates que, provavelmente, passaram e vão passar “batidos” na aprovação do plano. É fato que a questão da “ideologia de gênero” é preocupante no tocando a imposições patrocinadas por uma minoria, porém, antes de pensar em querer ocupar espaços da família e da própria natureza, é preciso se preocupar em escolas com boa estrutura para alunos e professores, materiais didáticos e pedagógicos condizentes com a necessidade de aprendizado e preparação mínima que a formação de um cidadão exige.

Já escrevi várias vezes que todos saíram derrotados da greve dos professores estaduais do Paraná, especialmente a parte mais fraca, que são os alunos, a sociedade. Agora, depois de toda confusão e o triste episódio de 29 de abril, professores têm carga mais pesada para repor as aulas, os salários não serão reajustados como queriam, a ParanáPrevidência foi alterada como eles não queria. O governador Beto Richa tem a pior rejeição e crise política e desgaste pessoal da sua trajetória e a comunidade escolar está com muitos prejuízos para tentar minimizar. E as perspectivas não são boas… Mas, de qualquer forma, o que se espera é que algumas lições tenham sido aprendidas…

Quais foram as lições?

Pelas redes sociais, especialmente pelo Facebook no grupo “Professores Paraná”, foi possível ver a revolta dos professores contra a APP-Sindicato que pode ser resumido na seguinte expressão: “Pedimos 8,17% de aumento, o Governo ofereceu 6% e a APP-Sindicato aceitou 3,4%”. O fato é que praticamente todos os pleitos que os servidores estaduais, capitaneados pela APP-Sindicato, que comandou a greve dos professores, comprometendo mais de 40 dias letivos e trazendo inúmeros prejuízos aos estudantes de todo o Paraná, acabou “morrendo na praia”.

As mudanças na ParanáPrevidência aconteceram de acordo com o desejo do governador Beto Richa e o reajuste salarial com, no mínimo, a reposição da inflação, que seria absolutamente justo, “morreu na casca”, mesmo com o jogo de cena da oposição que, na análise mais fria, ainda fez com que o Governo do Estado “ganhasse mais tempo” para definir o reajuste que, no fim das contas, vai acontecer só em outubro, totalmente ao contrário do que os professores e demais servidores reivindicavam. O custo ficou alto demais para a sociedade paranaense. Os professores, infelizmente, saíram da greve divididos e enfraquecidos, diferente do discurso sindical de que a “luta continua”.

Há consenso velado entre os professores que a greve e as negociações foram mal conduzidas, com um viés mais político que notadamente uma luta intransigente pelos direitos dos servidores. Este consenso existe diante do fato que a APP-Sindicato retrocedeu com velocidade a partir do momento em que a ameaça das multas e do ‘confisco’ dos recursos do sindicato e dos salários dos dirigentes se tornou real. De outro lado, o que ficou evidente é que, mesmo sem o sindicato, do qual muitos professores estão se desfilhando, é que a classe tem uma força incontestável que estava esquecida, adormecida. Porém, mesmo recobrando este poder de mobilização e influência sobre toda a comunidade, os professores saíram da greve em situação pior do que a iniciaram.

Além disso, ao retornarem para as salas de aula, a melhoria das condições de trabalho se tornaram mais utópicas e a pressão pela necessidade de cumprir com o ano letivo e com o necessário conteúdo aos alunos colocou sobre os seus ombros uma carga ainda maior, agora também ampliada pela cobrança de pais e alunos para que o tempo perdido neste primeiro semestre seja recuperado. Agora, resta distinguir quais foram as lições aprendidas neste contexto, manchado pela página negra do dia “29 de abril”, que nortearam as futuras ações, tanto dos gestores quanto dos próprios servidores.

Alunos voltaram às salas de aula, professores estão trabalhando com grande preocupação sobre a reposição das aulas e dos conteúdos perdidos. 2015 ficou mesmo marcado como uma ‘página negra’ na educação do Paraná e não se pode tampar o sol com a peneira. Será difícil, se não impossível, “repor” tudo o que foi perdido. E olha, todos perdemos… Será precisa mesmo um milagre.

Editorial de quarta-feira (10/06/15), da Gazeta do Paraná, retrata bem isso!

 

Sem louros e sem vitória

Sim, houve festa, ontem, com o anúncio do fim da greve dos professores da rede estadual de educação. A festa não foi no Palácio do Iguaçu, na Assembleia Legislativa ou na assembleia da APP-Sindicato. A festa aconteceu na casa dos cerca de um milhão de alunos que estão com o ano eletivo e o conteúdo comprometido por conta da greve. Festa para as famílias que não têm condições de arcar com os custos da educação da rede privada e que a cada dia de aula perdido, contabilizaram prejuízos.

Mas, se há festa pela volta às aulas, há também muita preocupação. Após quase dois meses sem aula, as escolas continuam exatamente como estavam no início do ano. Aquelas que têm deficiências na estrutura, continuam com seus problemas. As salas de aulas que estavam “lotadas”, também continuaram apertadas e os professores que reclamavam de melhores condições para o exercício da educação, infelizmente, não vão notar nenhum avanço neste retorno. Pior é que nem o reajuste salarial imediato pretendido pelos professores (e outro servidores) foi alcançado. Assim, a greve dos professores termina e ‘nada’ foi conquistado pela classe a não ser, certa antipatia de parte da população.

Pelas redes sociais, os próprios professores estão lamentando o desfecho da greve. Alguns tentam “disfarçar” afirmando que a “classe sai fortalecida” e “mais unida”. Porém, em um post no Facebook, um professor disse que agora o Paraná tem “dois tipos de professores”: um com moral, porque se manteve firme na greve, outro sem moral porque cumpriu expediente durante os dias de paralisação. Esta é uma demonstração da desunião da classe que sai fragilizada do movimento. Depois do massacre do dia “29 de abril”, todo sacrifício das mobilizações, vigílias e protestos acabou em “nada”.

E, se não bastasse, enquanto os professores e demais servidores estaduais terão reajuste 3,45% em outubro, os funcionários do judiciário do Paraná terão seus salários reajustados em 8,17%, na data-base da categoria, como determina a lei. Enfim, o desfecho deste negro capítulo da educação do Paraná, não trouxe vitórias ou louros para ninguém. Mas, sem dúvida alguma, os maiores prejuízos ficam para os alunos que, dificilmente, vão conseguir recuperar o tempo perdido. O conteúdo perdido neste período, por mais boa vontade que exista por parte dos professores (e não são todos que terão o mesmo empenho), não será repassado com a mesma qualidade do que nos dias letivos normais quando já não é fácil vencer o programa… Que Deus ajude alunos e professores. Educação com qualidade, agora, só por um milagre!.