Luciano Neves
O capítulo 5 do Evangelho de São Mateus faz a narrativa do sermão de nosso Senhor Jesus Cristo do alto de um monte. O Salvador disse a uma multidão. “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra…” E Jesus prosseguiu com as bem-aventuranças…
Com a permissão concedida pela licença poética, faço uma paródia do trecho do livro sagrado da Bíblia:
Bem-aventurados os que viram a Seleção da Copa de 70 jogar, pois presenciaram o tricampeonato.
Bem-aventurados os que aplaudiram os gols de Jairzinho e Pelé na Copa do México.
Bem-aventurados os que se encantaram com um meio-campo formado por Clodoaldo, Gérson, Tostão e Rivelino.
Bem-aventurados os mexicanos (e não mexicanos) que lotaram o Estádio Azteca e viram o Brasil detonar a Itália por 4 a1.
Bem-aventurados os estudiosos da Física, ciência que pode explicar o gol de cabeça de Pelé e o torpedo de Carlos Alberto Torres.
Bem-aventurada a Seleção Brasileira da Copa de 1970, pois jamais haverá outra como ela.
A última ‘bem-aventurança’ do futebol é bem forte. Não sou um bem-aventurado porque não vi a Seleção que faturou a taça Jules Rimet jogar e apenas me deleito com vídeos expostos na internet. E não terá outro time igual aquele. Pelo menos, não pode se esperar isso a partir do que é designado como ‘futebol moderno’.
O Barcelona de hoje venceria a Seleção de 70? Não venceria. O Barcelona tem uma escola de futebol que, apesar de ser considerada a melhor equipe do mundo hoje, ainda ‘engatinha’ para chegar ao nível da Seleção de 70. Exagero? Não. Pelé e Jairzinho passariam voando pela defesa do Chelsea e disputariam a final da Liga dos Campeões no próximo 19 de maio e seria favoritíssimo contra o Bayern. Outro time que ‘ensaia’ um futebol semelhante ao apresentado pela Seleção de 70 é o atual Santos que conta com a estrela Neymar, tendo Paulo Henrique Ganso como seu coadjuvante direto. Mas, perdoem-me os santistas, não terá o futebol apresentado pelo ‘timaço’ de 70.
Sei que vários leitores já estão se contorcendo ao ler esta ‘bem-aventurança’ e me chamando de louco. Talvez eu o seja, mas sou um louco frustrado por não ter visto um jogo, ao vivo da Seleção Brasileira de 70. Aquele time jogava demais. E foi o responsável pela equação ‘futebol bonito + resultado = conquistas’, sucumbida pelo ‘futebol moderno’.
Há quem diga que a Seleção que disputou a Copa de 82, na Espanha, e foi eliminada pela Itália, era melhor. Da mesma maneira que o selecionado de 70, o time de 82 era fantástico e repleto de craques. No entanto, faltou o resultado. Faltou a conquista. Sobrou o estigma da derrota.
Esse mesmo futebol moderno que prioriza apenas o resultado, por incrível que pareça, fez dois campeões mundiais de futebol. O Brasil, campeão de 2002, jogava para frente tanto é que Ronaldo foi o artilheiro da Copa com 8 gols. Mas a Seleção de 2002, de Felipão, já era adepta dos jogadores com capacidade de marcação (três zagueiros mais dois volantes), típica formação do futebol moderno.
A Itália, campeã de 2006 na Copa da Alemanha, era pragmática e não teve um grande destaque, mas surpreendeu a anfitriã Alemanha e a França na decisão. Isto se repetiu em 2010 na África do Sul. A Espanha foi a campeã e, recheada de jogadores do Barcelona, priorizou a posse de bola e com um futebol menos agressivo, menos incisivo que Holanda e Alemanha. Mas, com vitórias por placares mínimos, a Espanha venceu a Copa.
E, ao assistir os jogos da Copa Libertadores, esse pragmatismo do futebol moderno fica ainda mais evidente. É claro que prioriza-se um resultado, mesmo que simples, porém, necessário para a equipe que busca passar por uma fase de mata-mata.
Um exemplo, os corintianos. Eles ainda não definiram se aplaudem o Corinthians, que caminha a passos firmes para o título da Libertadores com o seu futebol de defesa sólida, ou se cobram um pouco mais de objetividade de seu ataque para conseguir as vitórias de forma mais tranquila (a boa vitória por 3 a 0 foi uma exceção do futebol moderno).
O torcedor colorado deve estar se perguntando: como pode um time com maior volume de jogo, buscando o gol o tempo todo, ser eliminado da Libertadores? A resposta: futebol moderno. De fato, o Inter foi melhor, chegou a abrir o marcador e até usou a forte marcação para neutralizar jogadores importantes como Deco. Mas foi vítima de uma jogada exaustivamente treinada por Abel Braga que definiu o jogo em duas bolas alçadas na área. O que importa é o resultado. Futebol moderno…
Outro exemplo é o Santos. Goleou por 8 a 0. Nooooossaaaa!!!! Deu show. Coitado do Bolívar. Mais uma raríssima exceção da regra geral do futebol moderno. No entanto, uma injeção de ânimo nas bem-aventuranças do futebol. Continue assim Peixe… porém, as estrelas santistas ainda estão devendo esse futebol objetivo, um resquício do futebol de 70, com a camisa da ‘amarelinha’. Só a sexta estrela sobre o escudo da Seleção Brasileira em 2014 me convencerá. E, definitivamente, serei um bem-aventurado.